Podia tentar explicar, mas não consigo. Por mais que tente, não estou a ser bem sucedida em pôr um ponto final nesta história (se é que é uma história e não uma mera frase esquecida a meio). O meu lado lógico e racional anda numa luta constante com esta coisa, este algo que cresceu dentro de mim e que insiste em ir ficando. Há mil razões, situações e justificações que me vou relembrando, para assegurar que não me esqueço de que ele não sente isso por mim. Afinal, porque sentiria? É bastante tempo (se ele estivesse realmente interessado, já alguma coisa teria acontecido). Eu não sou a típica miúda gira, a miúda por quem qualquer tipo cai de quatro (ora, sou a amiga, a miúda para conversar). Ele muda de atitude com uma facilidade brutal, tanto nos falamos todos os dias como passam duas semanas em que mal sei dele (ele não quer saber, ele não se preocupa). De certeza que existe uma pequena multidão de raparigas atrás dele (e até que ponto é que ele não está a jogar esse jogo?). As ideias estavam arrumadas, ele foi-se durante uns dias terríveis e a perspectiva fez-me acreditar que era agora, que, de uma vez por todas, tinha conseguido esquecê-lo, passado à frente, está feito e eu vou voltar a ficar sem estas coisas tolas de sentimentos por quem não sente nada por mim. Convenhamos, há muito mais para ver, muito mais para viver. Tudo isso muito mais importante do que isto. E, por isso, eu tinha-o esquecido, eu estava preparada para seguir em frente - tinha tudo organizado na minha cabeça, era lógico e racional, era tempo. Mas ele voltou antes do tempo e, por um qualquer segundo de destino, olhei e vi-o. Ele viu-me, a expressão dele de quem claramente não me esperava. E a reacção instantânea dele foi sorrir-me. Um sorriso que fugiu, um sorriso completo e feliz. Aquele sorriso. E, dentro de mim, nem toda a lógica e razão conseguiram impedir o meu coração de saltar.
[ it was only a smile - but my heart, it went wild. ]
Não estava à espera de nada naquela altura, muito menos que esse algo que surgiu tomasse as proporções que tomou e que me fizesse sentir como me senti. Não estava à espera de voltar a acreditar que aquelas coisas de sentimentos e tal, afinal, pudessem existir e que se aplicariam também a mim. Não estava à espera, mesmo nada à espera, de sentir por ele o que senti. De apaixonar-me lentamente, quase sem dar conta; de descobrir pequenos detalhes nele quando ao mesmo tempo parecia conhecê-lo há anos; de senti-lo algo meu, quando estupidamente me ia sentido algo dele. Não estava à espera de pensar (ou, julgo, chegar a acreditar) que ele era "o tal", por muito idiota que isso soe; de conseguir ver-nos juntos muito mais à frente nas nossas vidas, de criar imagens de um futuro (não tanto planos, somente... algo). Mas, confesso, estava à espera que, mais cedo ou mais tarde, a bolha rebentasse. Receios antigos ou profecia auto-realizável, não sei; mas parece-me que a história terminou, sem sequer ter chegado ao fim.
[ i was doing fine without you, till i saw your face - now i can't erase. ]
Recuso-me a acreditar que a vida é um mero caos desorganizado. Não vejo como nós possamos ser simples peões num jogo sem regras e sem sentido. Na minha cabeça, tudo acontece por um motivo, tudo tem um significado (ainda que, por vezes, só o descubramos passados meses, anos, décadas). O bom, o mau e o assim-assim. Algures, em algum momento, aquele acontecimento que me feriu há-de ter um motivo de ser.
Tem que ser assim. Ou, pelo menos, eu tenho que acreditar que assim é; senão, qual será a racionalização possível por trás deste Mundo?
[ and i've been a fool and i've been blind - i can never leave the past behind. ]
Sou ligeiramente às avessas. Nem sempre as coisas me parecem mais certas nos seus lugares quando as faço da forma que seria considerada normal.
Quando se aproxima o virar do ano civil (que pouco mais é do que uma data meramente simbólica, apesar de tanta gente ver nela a vinda de um novo Messias a cada 365 dias), dou por mim mais preocupada em reviver os detalhes dos 12 meses que vivi do que em preparar uma série de resoluções que sei que não irei cumprir nem pela metade.
Músicas, filmes, livros, frases, momentos, pessoas e sentimentos. Mil e uma coisas que eu tento compôr numa qualquer mescla minimamente lógica, para observar à distância o quadro de umas 8760 horas de vida. E de uma forma bastante agridoce, organizo tudo aquilo que ao longo do ano adio indeterminadamente - acalmando o coração e ouvindo a razão.
[ nothing compares - no worries or cares; regrets and mistakes, they are memories made. ]
Este ano, o Natal vai ser diferente. 24 de Dezembro chegou sem me dar tempo para o sentir chegar. Os dias foram passados a trabalhar, até ao último segundo. A família não vai estar completa à mesa da consoada - nem sequer no almoço de Dia de Natal. Sinto-me a dizer adeus aos melhores amigos de sempre, sem termos completamente a noção de que as coisas vão mudar. Falta o conforto quente no coração. As prendas que eu gostaria de receber não podem ser embrulhadas e colocadas debaixo de uma árvores, independentemente das luzinhas brilhantes que a iluminam.
Este ano, o Natal é diferente. Talvez porque eu esteja diferente, talvez porque o ambiente à minha volta continue a mudar - quer eu queira, quer não. O Natal vai ser diferente e o que se deseja é que, mesmo que mal amanhado, seja o mais feliz e o melhor que se possa ter. Com a esperança de que, para o ano, as coisas mudem novamente, mas para melhor.
Feliz Natal.
[ Merry Christmas! Merry Christmas... but I think I'll miss this one this year. ]
Mesmo quando não se quer, as coisas mudam, as perspectivas alteram-se, o que julgáramos certo não o é mais e aquilo que sempre havíamos tido como impossível, acontece. Imprevistos, boas notícias, fatalidades, tristezas e alegrias, planos e objectivos, relações e amizades. Nada é, na realidade - de facto - certo e seguro. E um tudo pode ser um grande nada, algo que nos preenche pode ser igualmente aquilo que nos esgota.
As coisas mudam. A vida não é linear. Uma recta nem sempre é a direito e tantas curvas há que são bem mais certas do que um caminho traçado minuciosamente.
Mas até quando valerá a pena agarrarmo-nos a um sonho que sabemos que nunca virá a ser real...?
[ too much of something is bad enough, but something's coming over me to make me wonder - too much of nothing is just as tough. ]
Música: "Waiting On The World To Change", John Mayer
Once upon a magic world, everyone was happy. There was no sadness, no hunger, no fights, no illness, no selfishness, no wickedness, no disrespect, no greed, no grim stupidity.
Once upon a magic world, all there was to it was kindness, goodness, contentment and joy; healthy ambition towards a better life for everyone, pure curiosity and thankfulness for every single new day we experience.
Once upon a magic world...
[ you may say i'm a dreamer - but i'm not the only one. ]
Não me sinto mais eu, não penso mais senão em ti. Não te posso ter, mas já não me tenho a mim. Por desejar ter tudo, acabei com nada. Brinquei às emoções até que o jogo deixou de ter piada. Aventurei-me sem medidas de precaução, acabei com arranhões e nódoas negras bem feios. E a história acabou sem nunca ter começado - com o pequenho detalhe de que levou com ela um grande pequeno pedaço de mim.
Faz-me sempre muita confusão quando alguém não sabe senão queixar-se da própria vida, quando têm tanto pelo que estarem gratos. Só vêem as suas "desgraças", esquecendo-se que a pessoa ao lado está numa situação bem pior. Seja egocentrismo ou falta de perspectiva, é algo que me irrequieta bastante.
Anda por aí demasiada ingratidão (sob tantas formas), demasiada ânsia em ter mais e mais, sem nunca se dar valor ao que, de facto, se tem. Parece-me algo juvenil; uma coisa é crise de adolescência, outra é crescer sem nunca sair dela.
Hoje é o meu Dia de Acção de Graças (sim, eu sei que foi há uma semana); hoje agradeço por tudo o que tenho, que é tanto - e tanto mais do que muita gente tem. Sou uma sortuda. Se sinto falta de algo? Sim, claro; sou humana. Mas reconheço que tenho mais do que aquilo que poderia desejar: uma família que me apoia, amigos incríveis, a possibilidade de ter uma educação, cama, comida e roupa lavada. Que mais se pode desejar?
[ i wish you that you will open your heart to all of this blessings, and let them flow through you; that everyone you will meet on this day will be blessed by you - just by your eyes, by your smile, by your touch: just by your presence. let the greatfulness overflow into blessing all around you: then, it will really be a good day. ]
É muito complicado quando se descobre algo que se quer muito, mas que não se pode ter. Ainda mais quando nos apercebemos que, antes de descobrirmos esse algo, éramos felizes sem ele; mas, que agora que sabemos que ele existe (e que não o podemos ter), é como se já não conseguissemos viver senão num constante contentamento descontente.
Há bem muito tempo (mas lembro-me como se tivesse sido ontem), discutia com um amigo o facto de, a partir daquele momento, a nossa vida passar a ser uma espécie de incógnita em perpetuidade. Já não iria haver aquele esquema organizadinho de pré-primária, primária, liceu (ou Ensino Básico), Secundário, entrada na Faculdade. Quando chegou o fim da licenciatura, a questão era simples: e agora?
Esse "agora" foi ao ritmo e ao sabor da vida. Tal como já acontecera antes, não mantive o esquema organizadinho que começara a delinear (old habits really do die hard). Acabei por ir ter ao mesmo sítio, mas apenas no momento em que era esperada. E foi das melhores experiências da minha vida.
O "agora" deste momento, esse, continua a ser uma incógnita - talvez não em perpetuidade, mas até à próxima aventura. À qual se seguirá um outro "agora" incognito. Na altura em que falei disto com esse amigo, há tanto tempo, assustava-me essa perspectiva; hoje em dia, acho que já não conseguia viver com o plano cuidadosamente delineado, para ser seguido à risca.
Gosto desta incógnita, seja ou não em perpetuidade.
[ quando tira un pò di vento che ci si rialza un pò - e la vita è un pò più forte del tuo dirle "grazie no". ]
Existem mil fragmentos e pequenas peças de puzzles há muito perdidos que me recordam pessoas de há muito tempo - e que há muito tempo saíram da minha vida. Não me fazem falta; não no verdadeiro sentido da palavra. Às vezes dá uma pontada de saudade - um calafrio de nostalgia - mas não me toca na pele, não me toca no coração.
Mesmo assim, continua a ser muito bom encontrar um desses fragmentos, uma dessas peças de puzzle, para me lembrar dos momentos que partilhei há tantos anos com alguém que, pelo menos naquela altura, foi tão especial para mim. Uma foto parada no tempo, um desenho perdido numa folha mal amanhada, uma mensagem esquecida no telemóvel antigo. Para recordar momentos, mas muito mais para me relembrar que essas pessoas me mudaram, me guiaram para um sítio diferente, me deram uma nova perspectiva, me deram sorrisos e algo com que sonhar.
E isso vale e continuará a valer, por muitos anos que passem. Não há amizades perdidas, apenas amizades que por vezes são de uma época e local somente, para aí ficarem - e na nossa memória.
[ old habits die hard when you've got a sentimental heart. ]
Um dia destes, vi uma rapariga num parque lisboeta à hora de almoço. Estava sozinha, a comer sushi. A certa altura, o rolo de sushi desfez-se e foi uma grande bagunça. A rapariga, sozinha, riu-se; limpou o molho de soja que lhe tinha escorrido para as mãos e continuou a comer os bocadinhos de arroz com os dedos, absolutamente impávida e serena. Levantou a cabeça para o Sol, fitou o céu e os seus olhos sorriram. Estava perfeitamente de bem com a vida.
Tive inveja dela. Quero ser essa rapariga, todos os dias, e sentir a mesma leveza de ser que ela transmitia.
Apetecia-me ir para longe, para poder afastar-me de tudo aquilo que não me deixa alcançar completamente aquela serenidade que procuro. Entrar num avião e partir para algum lugar distante, onde eu fosse a minha única preocupação no Mundo inteiro.
Como as coisas não funcionam bem assim, como o Mundo (esse sacana!) não pára só porque eu assim o entendo, vou ter que encontrar uma forma de encontrar essa serenidade aqui mesmo. No meio de toda a tumultuosa confusão que insiste em perseguir-me; assim, pelo menos, sei que quando der de caras com a dita serenidade, ela será feita de uma matéria bem mais forte e durável do que qualquer bolha de sabão que eu possa alimentar.
[ to be with myself and center; clarity, peace, serenity. ]
A solidão pode tomar as mais diversas formas. Ainda que a solidão de se estar de facto sozinho tenha o peso que tem, vim a aperceber-me que a solidão que mais me incomoda é a solidão de quando se está no meio de muita gente - de quem até gosto, com quem até me sinto bem - mas que desconhecem algo fulcral que se passa dentro de mim.
Nos últimos anos fui aprendendo a disfarçar o que me vai cá dentro, a esconder dos outros quando não estou bem. Construí uma espécie de muralha; não penso que seja demasiado forte, mas é o suficiente para manter os outros distantes do que me vai na alma. Até agora, são extremamente raras as pessoas que abriram caminho através dessa muralha.
E então vou andando na minha vidinha normal, muito happy go lucky, sem falar do que pesa dentro de mim, a guardar tudo muito quietinho cá dentro, a sentir-me como um móvel a ser lentamente corroído por bicho-da-madeira, ocultando de todos (por vezes, até de mim mesma) o que me faz um pouco mais triste a cada dia que passa.
Torna-se um pouco solitário. But who cares?
[ 'cause no one told me not to fall in love - no one gave me such advice. ]
Se há coisa em que sou muito tipicamente portuguesa, é naquela pequena questão muito peculiar das saudades. Tenho saudades quase sempre, de quase tudo; quando estou a ter um momento realmente feliz, sou capaz de sentir saudades quase que por antecipação. Sou assim, que hei-de fazer? Pode não ser muito saudável, mas é a forma como fui construída; desisti de combatê-lo, decidi abraçá-lo.
No meio de tantas saudades, existe algo em particular que, quando desaparece, me deixa realmente umas saudades tremendas: eu própria - melhor dizendo (o meu egocentrismo ainda não chega a tanto), a noção de quem eu sou. É demasiado fácil perdermo-nos no meio dos outros e, enfim, no meio da vida que corre ao nosso lado sem darmos por ela.
O último ano teve provavelmente dos melhores momentos que tive na minha vida; são memórias que ficarão para sempre. Mas no meio de tanta vida, perdi-me algures; agora é tempo de me reencontrar.
[ when you're dreaming with a broken heart, the waking up is the hardest part. ]
«This is a story of boy meets girl. The boy, Tom Hansen of Margate, New Jersey, grew up believing that he'd never truly be happy until the day he met the one. This belief stemmed from early exposure to sad British pop music and a total mis-reading of the movie 'The Graduate'.
«The girl, Summer Finn of Shinnecock, Michigan, did not share this belief. Since the disintegration of her parent's marriage she'd only loved two things. The first was her long dark hair. The second was how easily she could cut it off and not feel a thing».
Falta. Falta-me. Não sei exactamente o quê, mas falta-me.
Saudades. Nem sei bem de quê, nem de quem; mas tenho saudades.
Dele. Ou dele. Talvez de ambos e de mais algumas pessoas. De outra vida. De cenários desfeitos numa noite de tumultuosa tempestade, máscaras levadas pela chuva, palavras fugidas com o vento.
Tempos mais fáceis, ou nem tanto, mas que não mais voltam. Porque o que foi não volta a ser, mesmo que muito se queira. Ar, ar em abudância e sem me querer saltar do peito. Aquela alegria, aquela esperança infantil em algo melhor. Inocência, ignorante inocência.
Falta. Falta-me. Não sei exactamente o quê, ou quem... mas falta-me.
[ acredito e entendo que a estabilidade lógica de quem não quer explodir faça bem ao escudo que és. ]
Tenho uma obsessão por café, outra por sapatos (All Stars em particular) e a escrita é o meu Jardim de Éden. And that's that.
Para tudo ou para nada: lorelaigrint@gmail.com
«I have a friend, a jazz musician, trumpet player. Really terrific. And I go and hear him jam every month or so. And he plays this piece I love: an old Chet Baker song. And he blows the same notes every time, but every time it sounds different.
And we had drinks one night - when I used to drink - and I tried to tell him how that song made me feel... how the music made me feel and how his playing made me feel. And he just kept shakin' his head, and he said:
"Joan, you can't talk about music. Talking about music is like dancing about architecture. "
I just said, "Well, gonna get all philosophical on me. It's just as pointless as talking about a lot of things. Love, for instance."
And my friend laughed, and he said:
"Definitely. Most definitely. Talking about love is like dancing about architecture."
So I don't know. He might be right. But it ain't gonna stop me from trying.»