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Lorelai
Música: "The Man In The Mirror", Michael Jackson
A partir de um comentário da K. no último post, apercebi-me de que, para mim, existem duas realidades bastante distintas: o ser-se cobarde e, por outro lado, o ser-se apenas extremamente inseguro. São coisas muito diferentes, mas, não-raras vezes, interpretadas por aqueles que estão de fora como exactamente a mesma coisa.

Como ser original está a tornar-se muito last season, vou recorrer novamente ao tema do tópico anterior para exemplificar: Harry Potter ou, mais propriamente, Ron Weasley.

A K. diz que o Ron é cobarde e foi daí que este post nasceu: eu discordo por completo. Quem tiver lido os livros do Harry Potter (repito: lido os livros - não é ver os filmes), sabe que o Ron foge muitas vezes de enfrentar os seus medos - mas é o primeiro a saltar em frente para defender aqueles que ama e aquilo que considera verdadeiramente importante. Ora onde começa o cobarde e acaba o inseguro?

Um cobarde, para mim, não é alguém que foge dos seus medos - isso todos nós fazemos enquanto seres humanos. Ao sermos humanos temos inteligência (ou assim se espera) e, logicamente, o melhor para nós próprios, regra geral, não implica mergulharmos de cabeça em algo que receamos profundamente.

A meu ver, um cobarde é alguém que foge dos seus medos mesmo quando isso implica perder algo de verdadeiramente importante. Nessa categoria existe uma vasta panóplia de opções: uma pessoa, um ideal, um sonho. Cobarde é quem não luta por aquilo em que acredita, por aqueles em quem acredita.

Uma pessoa insegura não é necessariamente um cobarde, do mesmo modo que acredito que nem todos os cobardes são pessoas inseguras. Muitas vezes são meramente fracas. E uma pessoa pode ser insegura e não ser fraca.

As inseguranças nascem das mais variadas formas, pelos mais diversos motivos; nem todos têm a sorte de ter uma existência perfeita que proporcione uma segurança pessoal inesgotável. Essas inseguranças podem - e usualmente procuram precisamente - tomar conta de nós. Um cobarde deixar-se-á afundar nelas; mas é preciso muita coragem para enfrentá-las nos momentos certos e crescer a partir delas - que é precisamente o que o Ron faz.

É uma metáfora e nada mais do que isso; mas identifico-me com o Ron nesse aspecto. Não me considero cobarde - se bem que outros possam clamar que o sou, chi sa com razão; mas sei, de certeza certa, que sou muito insegura. De qualquer modo, cresci com essas inseguranças, lutando contra elas, procurando desvanecê-las, senão mesmo extingui-las. Com mais ou menos sucesso, é esse o caminho que tenho trilhado e foi por aí que cresci. Cobarde? Não. Insegura? Sem dúvida, mas com a coragem de remar contra a maré.



[ There are all kinds of courage. ]
Lorelai
Música: "All You Wanted", Michelle Branch
Numa das minhas conversas telefónicas do costume com a K., pergunta-me ela (aparentemente do nada): "Ele agora é o Voldemort?"

"O quê?", pergunto eu deste lado da linha, sem perceber de imediato onde ela queria chegar.

"Não podes dizer o nome dele?*", aqui estava a conclusão da K. - acertada, aliás (por esta altura já devia saber que a K. nunca diz este género de coisas sem motivo - por muito loucas e completamente inesperadas que sejam).

"É, é isso", concordo eu, sentindo-me ligeiramente envergonhada. "Aquele Cujo Nome Não Deve Ser Pronunciado. Ultimamente voltou a ser um bocado isso, sim. E quem quiser, que seja o Harry ou mesmo a Hermione e diga o nome dele; eu hei-de continuar a ser o Ron".

O Dumbledore diria que o medo do nome serve apenas para aumentar o medo da coisa em si; mas isto não se trata tanto de medo como da minha recente alergia ao masoquismo. E, para além disso, vejamos os factos: o Dumbledore dizia o nome do Quem-Nós-Sabemos e, bem, morreu; o Harry também o dizia e quase acabou a ir pelo mesmo caminho quando o nome virou tabu. Que isto sirva de lição, especialmente a quem, por mero acaso, acaba o dia a percorrer os tortuosos caminhos down Memory Lane.

*(E é por estas e por outras tiradas da K. que eu sei que a nossa amizade reside também - e algumas vezes, muito especialmente - nos silêncios e nas palavras que ficam ditas por dizer).


[ Just because you've got the emotional range of a teaspoon doesn't mean we all have. ]