



“I’ll tell you who you are. You’re a scared little boy. I just see you for who you are, unlike you who could only see me as this silly girl who made a fool out of herself. And that’s where you lose; because if you take a second look at me, you would realize that I’m the only person in your life who knows you and accepts you for who you are no matter what.”
[ and truth be told, i miss you; and truth be told - i'm lying. ]

A vida deve ser mais do que responsabilidades, trabalho e busca incessante por dinheiro; a vida não deve ser feita de meros objectivos materiais. A vida tem que ser obrigatoriamente momentos, momentos que, ao fim do dia, valem realmente a pena. A vida não é chegar aqui e passar ao lado de tudo, qual animal de carga com palas nos olhos, obecendo cegamente a quem o obriga a seguir aquele e só aquele caminho.
A vida é viver. Saltar, rir, correr, berrar, soltar uma grande gargalhada só porque apetece, mesmo que a situação não fosse a mais própria para tal. A vida é fazer parvoíces, é ser genuíno. Senão, não é uma vida digna de tal nome.
Por isso é que quando me dizem "Pareces uma criança" ou me perguntam "Mas tu nunca hás-de crescer, pois não?", no tom de maior desprezo que conseguem arrancar, algo dentro de mim entra em turbilhão e arde por responder "Muitíssimo obrigada, sois demasiado gentil" e "Não, realmente não - pelo menos se isso significar deixar de saber ser eu, deixar de saber gozar a vida".
Sou criança, sou; só desejo, com todas as células do meu ser, nunca me esquecer de como sê-lo. No dia em que viver signifique meramente responsabilidades, dinheiro e caminhos previamente traçados, hei-de olhar para o lado, rir-me com desdém e dissidir desta existência.
[ we all need to believe, that we can wake up in the dream - it's not as hard as it seems. ]
Criamos imagens tão perfeitas e detalhadas de desejos e ilusões, recriamos indefinidamente diálogos e reacções, realizamos vezes e vezes sem conta aquela cena, aquele take, que nos esquecemos que o que estamos a construir na nossa mente não é, de facto, a realidade - não antes de ela acontecer. Antecipamos aquele grande momento, o clique que irá mudar a nossa vida e, descuidadamente, cometemos o erro de principiante de não colocar um pé à frente do outro, quem sabe se arriscando tudo. E quando, finalmente, chega a hora esperada... sabe-nos a pouco, a muito pouco, quando outrora dependia de nós apenas criar e recriar os melhores cenários para o nosso próprio filme.
Em certos momentos, desejo muito, mas muito mesmo, que não tivessem passado tantos anos, que não tivessemos seguido caminhos separados, que não fossemos hoje autênticos estranhos. Dou por mim a desejar muito, mas muito mesmo, que por mero e total acaso esbarrássemos no meio da rua, talvez ao portão da nossa antiga escola onde nos encontrávamos todas as manhãs - e que nesse momento, tantos anos depois, não fossemos mais duas crianças que não sabiam bem ao que andavam e que tudo, mas tudo resultasse de modo diferente.
"És doida varrida".
"Eu sei, mas eu gosto assim".
Sem qualquer ponta de ironia ou espécie alguma de amargura. A K. tem toda a razão quando afirma que eu sou louca; mas a verdade é que eu não consigo imaginar-me a ser outra pessoa - ou uma com menos manias estranhas. Sem elas, a minha vida perdia a piada toda.
Gosto assim. Mesmo.
[ life isn't about finding yourself. life is about creating yourself. ]
Apeteceu-me sonhar que na minha vida havia uma daqueles histórias de filme ou contos-de-fada, daquelas histórias de amor perante as quais todos se riem cinicamente, "isso só acontece nos romances".

... hoje seria mesmo o dia para a utilizar mesmo a sério. Para amaldiçoar uma ou outra pessoa, para enfeitiçar os objectos inanimados que teimaram em me chatear a molécula, para encantar o Sol que se fugiu, para evocar momentos milagrosos. Dia mesmo muito próximo de esquizofrenia, quase-quase de claustrofobia, definitivamente à beira de um ataque de nervos e muito, mesmo muito pouco inspirado, ao ponto de já nem conhecer as palavras da minha próproa Língua. Mesmo.
[ i wish it was Sunday... but it's just another manic Monday. ]

[ sometimes you just gotta smile. ]
São aquelas manhãs em que saío de casa às 7h e tal da manhã e não está escuro como breu, em que mesmo que o dia esteja meio enublado se ouvem os pássaros a cantar nas árvores.
São aquelas manhãs em que não me contraio com o frio polar mal ponho o nariz fora de casa e em que começo a pensar que o cachecol começa a ser definitivamente dispensável.
São aqueles dias em que na hora de almoço só apetece aproveitar uns quinze minutinhos de pausa para absorver ao máximo os primeiros raios de sol minimamente quentes, mesmo que ao aparecer uma nuvem que os faz desaparecer fique completamente congelada.
São aquelas tardes em que até que apetece levar o caminho mais longo para casa, andar um pouco mais ao ar livre, respirar fundo e permitir-me um glorioso momento de pausa a sentir o vento, seja quente ou seja frio.
São aqueles inícios de noite em que o sol só desaparece à hora de jantar e não logo às cinco da tarde, aqueles tons laranja que nos lembram insistentemente que o Verão já não está assim tão longe (se ao menos tivermos um pedacinho de perspectiva).
São aqueles fins-de-semana em que os jogos de futebol a meio/fim de tarde já não parecem ser de noite mas sim realmente de tarde, em que só apetece que chegue Maio, em que parece que o fim de campeonato e a Taça de Portugal estão já aqui.
São as árvores a ganhar flor, são as flores a ganharem vida, é a relva mais verde, é tudo com mais cor, com mais música e mais poesia.
É aquele ambiente que relembra dias mais simples, dias mais sinceros, dias mais puros, dias tão distantes mas que com este cheiro a Primavera parecem ser os dias de agora. É aquele ambiente que nos assegura que dias melhores, mas talvez não tão simples, estão bem ao virar da esquina, se ao menos acreditarmos um pouco mais.
Porque tão certo como a Primavera estar a chegar, esses dias já foram mas esses dias hão-de voltar. A pouco e pouco, algo tímida e lentamente, como ela; mas que vêm aí, com passo seguro, disso não resta dúvida.
[ bella come una mattina d'acqua cristallina, come una finestra che m'illumina il cuscino. ]
Um dos motivos pelos quais sei que a dança é das coisas mais perfeitas e poderosas do Mundo, quando é interpretada com coração. Como o Mundo deveria ser... em formato «pas de deux».
Coreografia de Dwight Rhoden e Desmond Richardson, interpretada por Will Wingfield e Katee Shean
Certamente não há ninguém que não tenha já passado pelo mesmo: a determinada altura sentimos que existe alguém que nos é absolutamente indispensável – ou, até, que somos totalmente necessários a essa outra pessoa. E, nesse momento específico, preenche-nos uma convicção inabalável de que assim é. Um cenário fora dessa espécie de dependência parece, de todo, risível.
E aí acontece a vida. E, por um motivo ou por outro, essa pessoa sai da nossa – ou saímos nós. E aquilo que parecia impossível, acontece. Somos nós sem essa pessoa na nossa vida. E, atenção, que isto não se trata apenas de relações amorosas; acontece recorrentemente em amizades. Não se consegue explicar, muitas vezes nem se pressente, mas, subitamente, vemo-nos nesse tal cenário que nunca considerámos sequer exequível. E, então, o que se faz?
Continua-se. E, um dia, mais tarde, reparamos que, afinal, não éramos assim tão indispensáveis – nem que essa outra pessoa nos fosse realmente tão necessária. Até podemos ter saudades, até podemos cair numa certa nostalgia a dado momento; só que, na realidade, continuamos a ser nós, porque o que nunca poderíamos de modo algum substituir era a nossa vida.
2009.10.16
[ who’s gonna drive you home tonight? ]
Ultimamente parece que há uma qualquer alergia a estar só. Esta constatação vai desde namoros de conveniência a uma necessidade extrema de combinar sempre uma qualquer actividade com outras pessoas - quaisquer pessoas que sejam.Em conversa com a X., que já não via há imenso tempo, descobri que também ela partilha deste ponto de vista: parece que as pessoas já não sabem apreciar a própria companhia. É como se estar sozinho - por um momento que seja - fosse a maior maldição da História.
Ora, modéstias à parte, eu não gosto da minha companhia; eu adoro a minha companhia. Sem desprimor pelos momentos em família e com os meus amigos (que adoro igualmente), a verdade é que aprecio profundamente aqueles momentos só meus. Seja a fazer o que for - ou mesmo a não fazer nada. Gosto de passar tempo só comigo e faz-me bem.
À vista desta pandemia "estar-com-gente-só-para-não-estar-sozinho", que ameaça tornar-se mundial, aconselho a todos que descubram a felicidade de passar some quality time com vocês próprios. Recomenda-se.
Martha Beck, autora e colunista, aconselha a fazer a cada dia uma lista de 10 coisas boas na nossa vida. E não vale repetir. Aparentemente, focarmo-nos no bom ao invés dos aspectos negativos da nossa vida torna-nos automaticamente mais optimistas e felizes (yupi, genious is in town!). De qualquer modo, na lista que apresentou, Martha Beck escreveu o seguinte:Thing Seven: Dogs
Dogs are my favorite role models. I want to work like a dog, doing what I was born to do with joy and purpose. I want to play like a dog, with total, jolly abandon. I want to love like a dog, with unabashed devotion and complete lack of concern about what people do for a living, how much money they have, or how much they weigh. The fact that we still live with dogs, even when we don't have to herd or hunt our dinner, gives me hope for humans and canines alike.
A partir de um comentário da K. no último post, apercebi-me de que, para mim, existem duas realidades bastante distintas: o ser-se cobarde e, por outro lado, o ser-se apenas extremamente inseguro. São coisas muito diferentes, mas, não-raras vezes, interpretadas por aqueles que estão de fora como exactamente a mesma coisa.Um cobarde, para mim, não é alguém que foge dos seus medos - isso todos nós fazemos enquanto seres humanos. Ao sermos humanos temos inteligência (ou assim se espera) e, logicamente, o melhor para nós próprios, regra geral, não implica mergulharmos de cabeça em algo que receamos profundamente.
A meu ver, um cobarde é alguém que foge dos seus medos mesmo quando isso implica perder algo de verdadeiramente importante. Nessa categoria existe uma vasta panóplia de opções: uma pessoa, um ideal, um sonho. Cobarde é quem não luta por aquilo em que acredita, por aqueles em quem acredita.
Uma pessoa insegura não é necessariamente um cobarde, do mesmo modo que acredito que nem todos os cobardes são pessoas inseguras. Muitas vezes são meramente fracas. E uma pessoa pode ser insegura e não ser fraca.
As inseguranças nascem das mais variadas formas, pelos mais diversos motivos; nem todos têm a sorte de ter uma existência perfeita que proporcione uma segurança pessoal inesgotável. Essas inseguranças podem - e usualmente procuram precisamente - tomar conta de nós. Um cobarde deixar-se-á afundar nelas; mas é preciso muita coragem para enfrentá-las nos momentos certos e crescer a partir delas - que é precisamente o que o Ron faz.
É uma metáfora e nada mais do que isso; mas identifico-me com o Ron nesse aspecto. Não me considero cobarde - se bem que outros possam clamar que o sou, chi sa com razão; mas sei, de certeza certa, que sou muito insegura. De qualquer modo, cresci com essas inseguranças, lutando contra elas, procurando desvanecê-las, senão mesmo extingui-las. Com mais ou menos sucesso, é esse o caminho que tenho trilhado e foi por aí que cresci. Cobarde? Não. Insegura? Sem dúvida, mas com a coragem de remar contra a maré.
Numa das minhas conversas telefónicas do costume com a K., pergunta-me ela (aparentemente do nada): "Ele agora é o Voldemort?""O quê?", pergunto eu deste lado da linha, sem perceber de imediato onde ela queria chegar.
"Não podes dizer o nome dele?*", aqui estava a conclusão da K. - acertada, aliás (por esta altura já devia saber que a K. nunca diz este género de coisas sem motivo - por muito loucas e completamente inesperadas que sejam).
"É, é isso", concordo eu, sentindo-me ligeiramente envergonhada. "Aquele Cujo Nome Não Deve Ser Pronunciado. Ultimamente voltou a ser um bocado isso, sim. E quem quiser, que seja o Harry ou mesmo a Hermione e diga o nome dele; eu hei-de continuar a ser o Ron".
O Dumbledore diria que o medo do nome serve apenas para aumentar o medo da coisa em si; mas isto não se trata tanto de medo como da minha recente alergia ao masoquismo. E, para além disso, vejamos os factos: o Dumbledore dizia o nome do Quem-Nós-Sabemos e, bem, morreu; o Harry também o dizia e quase acabou a ir pelo mesmo caminho quando o nome virou tabu. Que isto sirva de lição, especialmente a quem, por mero acaso, acaba o dia a percorrer os tortuosos caminhos down Memory Lane.
*(E é por estas e por outras tiradas da K. que eu sei que a nossa amizade reside também - e algumas vezes, muito especialmente - nos silêncios e nas palavras que ficam ditas por dizer).
[ Just because you've got the emotional range of a teaspoon doesn't mean we all have. ]
Não sei se terá sido do frio enregelante, se terá sido do Sol que decidiu finalmente despontar ou da luz reflectida nos edifícios, mas esta manhã enquanto caminhava pela calçada portuguesa de Lisboa apercebi-me de que vai ficar tudo bem. Fases são apenas isso mesmo e nem sempre tudo pode ser perfeito (se é que alguma vez o é).Por saber que vai ficar tudo bem - que eu, eventualmente, estarei bem e bem melhor que nos últimos tempos - enchi-me de vontade e vim aqui a esta caixinha de memórias, sem receio de lhe tirar as teias de aranha e de lhe limpar o pó para recordar fotografias antigas. Apenas porque memórias não são mais que memórias, boas ou más, que ganham uma nova vida conforme as diferentes luzes que nos vão iluminando.
Dizem que recordar é viver; eu assino por baixo mas acrescento que, não raras vezes, o melhor mesmo é parar de recordar e, muito simplesmente, começar a viver.

